
UE planeja 1º cabo submarino direto até a Groenlândia
Pan-Arctic Cable é parte da nova estratégia ártica europeia, que já destinou € 107 milhões à conectividade da ilha em meio à desconfiança com Washington.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
€ 107 milhões é só o começo da conta
€ 107 milhões: foi o valor que a União Europeia já destinou para desenvolver conectividade segura e soberana na Groenlândia — parte da nova estratégia ártica do bloco, anunciada em 20 de outubro, que inclui o plano do primeiro cabo submarino direto entre a Europa e a ilha, batizado de Pan-Arctic Cable. O projeto é tratado como uma das iniciativas-bandeira da estratégia, não como mais um contrato de infraestrutura comum.
Por que contornar os Estados Unidos
A rota prevista no plano passa pelo Canadá, com uma extensão futura até o Japão e a Coreia do Sul — contornando deliberadamente os Estados Unidos como ponto de passagem das telecomunicações entre os dois lados do Atlântico. A motivação é geopolítica: Bruxelas passou a tratar cabos submarinos como questão de segurança estratégica, não só infraestrutura comercial, num momento de deterioração da relação de confiança com Washington e de presença militar russa crescente no Ártico. Entre os riscos que a União Europeia diz querer mitigar estão interferência em sinais de navegação por satélite e sabotagem de infraestrutura submarina.
O desafio prático
Estender o cabo pelo Ártico até a Ásia vai exigir quebra-gelos europeus adicionais só para instalar e manter os trechos em águas congeladas — um tipo de operação logística que a Europa ainda não tem em escala suficiente. Ou seja, o anúncio da estratégia é mais fácil que a execução: não basta decidir construir o cabo, é preciso ter a frota certa para isso.
O que falta fechar
Nem o custo total do Pan-Arctic Cable nem um prazo de conclusão foram divulgados — os € 107 milhões cobrem só a conectividade da Groenlândia, uma parte do projeto maior. Também não está claro quais empresas vão operar o cabo nem como o financiamento das extensões até Japão e Coreia do Sul será dividido entre os países envolvidos.