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IA18 de ago. de 2026, 16:42Atualizada em 20 de ago. de 2026, 15:57

Um AirTag escondido revela: Amazon destrói livros raros para treinar sua IA

Investigação do 404 Media rastreou um lote de livros raros até um centro da Amazon em Las Vegas, onde exemplares são escaneados e destruídos para virar dado de treinamento de modelos de IA.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O rastreador que expôs o esquema

Imagine colocar um AirTag — aquele rastreador de chaveiro e mala de viagem — dentro de uma doação de livros antigos só para ver aonde ela vai parar. Foi mais ou menos isso que jornalistas do 404 Media fizeram. O resultado: o lote de livros raros percorreu o país e terminou numa instalação da Amazon em Las Vegas, identificada como VGT3. O símbolo da unidade é um dinossauro T-rex segurando um livro nas garras — uma ironia e tanto para quem lida com literatura.

Segundo a investigação, dentro desse centro os livros são escaneados para virar dado de treinamento de inteligência artificial e, no processo, destruídos. Para acelerar o escaneamento, as lombadas são cortadas — o que inutiliza os exemplares originais.

Por que livros raros valem tanto para treinar IA

Aqui entra o jargão técnico, traduzido em bom português: modelos de linguagem (os LLMs, como o ChatGPT) aprendem a partir de enormes quantidades de texto. O problema é que a internet já foi praticamente toda "aspirada" para treinar essas ferramentas. Livros impressos e fora de circulação são um filão novo — e mais raro ainda: por terem sido publicados antes da popularização de ferramentas como o ChatGPT, é garantido que não têm nenhuma palavra escrita por outra IA.

Essa característica protege contra um fenômeno batizado de "model collapse", algo como um jogo de telefone sem fio: se uma IA aprende repetidamente com texto gerado por outra IA, os erros se acumulam e a qualidade despenca geração após geração. Livro raro impresso antes da era do ChatGPT é, nesse sentido, uma fonte "limpa" — daí a suspeita de que empresas de IA estejam tentando escanear sistematicamente cada livro catalogado por ISBN.

Os dois lados da história

Procurada, a Amazon afirmou que "adquire livros através de canais comerciais para melhorar os produtos e serviços que os clientes utilizam" — resposta que não nega a prática, mas também não detalha o volume de exemplares destruídos nem se algum é preservado. Do outro lado, livreiros e defensores de acervos veem um problema de patrimônio cultural: livros raros costumam ser exemplares únicos ou de tiragem pequena, e o descarte é irreversível.

O episódio ganha um contorno simbólico à parte: a Amazon nasceu como livraria online, em 1994. Trinta e tantos anos depois, a mesma empresa aparece destruindo fisicamente livros para alimentar máquinas — não mais para vendê-los, mas para apagá-los enquanto extrai seu conteúdo.


Atualização (20/08, 15:57): Investigação da 404 Media rastreou com um AirTag um livro raro até uma unidade da Amazon em Las Vegas, onde exemplares impressos são destruídos para digitalizar o conteúdo e alimentar modelos de inteligência artificial.

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