
Usuários usam IA para 'burrificar' smart TVs e sumir com anúncios
Donos de smart TVs têm usado agentes de inteligência artificial, como o Claude Code, para remover bloatware e anúncios das interfaces de fábrica e criar launchers próprios. A moda já rendeu projetos abertos como dumbtv e cleanyourtv, mas envolve riscos reais de travar o aparelho.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
Quem comprou uma smart TV nos últimos anos sabe a sensação: ligar o aparelho e esbarrar em banners, recomendações patrocinadas e uma interface lenta, cheia de apps que não foram pedidos. Para driblar esse excesso de publicidade — e o rastreamento de hábitos de visualização que vem junto —, um grupo de usuários e desenvolvedores descobriu um atalho: pedir para uma IA fazer o trabalho sujo de "burrificar" a TV de volta.
Como funciona o hack
O método, relatado pelo Tecnoblog e pela TechCrunch, é mais simples do que parece. O usuário ativa as opções de desenvolvedor da TV, conecta o aparelho à mesma rede Wi-Fi do computador e entrega a um agente de IA — geralmente o Claude Code, ferramenta de programação assistida por inteligência artificial da Anthropic, empresa americana especializada em IA — o modelo do televisor e uma instrução do tipo "dá pra invadir isso?". A partir daí, o agente localiza a TV na rede, faz um backup do sistema, identifica pacotes de propaganda e rastreamento e propõe a remoção, sem precisar de root nem impedir o retorno ao padrão de fábrica. Em um dos casos citados, a IA removeu 25 pacotes da Xiaomi instalados na TV e ainda escreveu um launcher novo, do zero, para substituir a interface original.
Dois projetos de código aberto já nasceram dessa onda: o cleanyourtv, que promete limpar qualquer Android TV ou Google TV via Wi-Fi e trocar o menu por algo parecido com a interface da Apple TV, e o dumbtv, cujo lema resume o sentimento do grupo: a TV deveria fazer só o que foi paga para fazer — rodar os apps e os HDMIs do usuário, sem anúncios nem atualizações indesejadas. Marcas como Xiaomi, TCL, Sony, LG, Hisense e Fire TV aparecem entre os aparelhos já testados.
Nem sempre é tão simples assim
A experiência não é livre de percalços. Usuários relataram que o Claude Code às vezes recusa comandos mais diretos — é preciso reformular o pedido com mais contexto técnico — e que a IA pode, por engano, desativar pacotes essenciais do sistema, deixando a TV travada no meio do processo ou, no pior cenário, brickada (inutilizada). Dispositivos Fire TV, em particular, mostraram mais instabilidade durante os testes.
Vale a pena arriscar?
Para quem já tem a TV em casa e não se incomoda em mexer nas configurações de desenvolvedor, o ganho é real: interface mais rápida, sem publicidade, sem coleta de dados para anúncios. Mas é um processo que ainda exige conhecimento técnico, paciência para lidar com erros do agente e a consciência de que, na pior hipótese, pode custar a TV. Para a maioria dos usuários, especialmente os menos habituados a mexer em sistemas Android, a alternativa mais segura continua sendo ignorar a smart interface de fábrica e plugar um dongle dedicado — Chromecast, Apple TV ou Fire TV Stick — que resolve o problema da lentidão e do excesso de apps sem tocar no firmware do televisor.
Atualização (23/10, 12:48): Projetos open-source como Cleanyourtv, tv-detox e dumbtv usam LLMs para remover anúncios, bloquear rastreamento e até recriar a tela inicial da smart TV — um usuário a transformou em uma cidade de Pokémon.