
Vacina de mRNA 100% brasileira da Fiocruz começa a ser testada em humanos
Anvisa autorizou em agosto o primeiro estudo clínico de uma vacina de mRNA desenvolvida inteiramente no Brasil, contra a Covid-19. Pesquisadores já avaliam a mesma tecnologia contra câncer, dengue, malária e Chagas.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Da bancada do laboratório ao braço de um voluntário: é essa distância que a primeira vacina de mRNA feita do zero no Brasil está prestes a percorrer. Depois de anos de pesquisa, a Fiocruz vai testar em seres humanos um imunizante cuja molécula genética e cuja proteção em nanopartícula lipídica foram desenvolvidas inteiramente em território nacional, sem depender de licenciamento ou importação de tecnologia estrangeira.
O que está confirmado
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou em 20 de agosto de 2026 o avanço do estudo clínico da vacina de mRNA da Fiocruz — instituição de pesquisa e produção de imunobiológicos ligada ao Ministério da Saúde — contra a Covid-19. A Fase 1 do estudo está prevista para começar no primeiro trimestre de 2027, após aprovação do protocolo por um Comitê de Ética em Pesquisa, e vai incluir 90 voluntários adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, recrutados em dois centros no Rio de Janeiro: a Unidade de Ensaios Clínicos para Imunobiológicos e a Policlínica Lincoln de Freitas Filho.
Segundo o registro do estudo no ClinicalTrials.gov, a vacina codifica a proteína Spike da variante XBB do coronavírus e será testada em três doses diferentes — 25 μg, 50 μg e 100 μg — em formato aberto, multicêntrico, não randomizado e não controlado, ou seja, pesquisadores e participantes sabem qual produto está sendo administrado. Os voluntários serão acompanhados por até um ano, entre recrutamento e monitoramento pós-aplicação.
O Ministério da Saúde destinou R$ 210 milhões para pesquisas futuras na área, envolvendo também o Instituto Butantan e o CT-Vacinas, centro de pesquisa mineiro. A Fiocruz é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como centro de referência em tecnologia de mRNA para a América Latina e o Caribe desde 2021. "O mRNA pode abrir centenas de oportunidades que ainda não foram abertas", afirmou Fernanda Negri, secretária do Ministério da Saúde, segundo reportagem do Olhar Digital.
O que é hipótese
As aplicações futuras da plataforma de mRNA — para tratamentos contra câncer e vacinas contra dengue, malária, doença de Chagas e imunoterapias do tipo CAR-T modificado — ainda são projetos em estágio de pesquisa, não produtos em teste clínico avançado. O resultado mais chamativo divulgado até agora, uma redução de até 85% no volume de tumores sólidos, incluindo câncer de cólon, veio de estudos em animais, não em humanos, e não deve ser tratado como eficácia comprovada em pessoas. A própria ideia de transformar a estrutura em uma "plataforma" de resposta rápida a diferentes doenças depende do sucesso desta primeira fase clínica, ainda não iniciada.