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IA15 de out. de 2026, 09:11

Vale do Silício adota 'superinteligência' no mesmo embalo que Trump

Depois que o presidente dos EUA assinou uma ordem executiva para trocar 'inteligência artificial' por 'superinteligência' nos textos do governo, nomes como Jensen Huang e Mark Zuckerberg passaram a usar o novo termo, enquanto Google, OpenAI e Anthropic evitam o troca-troca em público.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Uma palavra pode mudar uma lei inteira

Imagine que, da noite para o dia, alguém decida que "carro" passa a se chamar "veículo supremo". Nada muda no motor, mas todo contrato, lei de trânsito e manual técnico que fala em "carro" fica desatualizado. É mais ou menos esse o experimento que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou emplacar com a inteligência artificial. Em 29 de setembro, ele assinou a ordem executiva "Inaugurating the Era of Super Intelligence", mandando que todos os órgãos do governo federal troquem "Artificial Intelligence" (AI) por "Super Intelligence" (SI) em comunicados e documentos não previstos em lei. Em bom português: ele quer apagar a palavra "artificial" porque, segundo ele próprio, "a outra palavra é uma palavra falsa".

Quem entrou na onda — e quem não entrou

Foto: reprodução/gizmodo.com

Segundo reportagem do site The Verge, parte do Vale do Silício topou seguir o roteiro, mesmo que o restante da população continue dizendo simplesmente "IA". O caso mais citado é o de Jensen Huang, CEO da Nvidia (fabricante dos chips que sustentam boa parte da corrida de IA no mundo), que passou a chamar seus data centers de "fábricas de superinteligência" e teve um post sobre o acordo da Casa Branca visualizado mais de 2,1 milhões de vezes. Mark Zuckerberg, da Meta, já vinha preparando o terreno desde agosto, quando publicou a carta "The Future is for Everyone" e rebatizou sua divisão de pesquisa de "Meta Superintelligence Labs" — ainda que o próprio documento use a palavra "IA" 44 vezes, prova de que nem a Meta cortou o cordão de vez. Elon Musk chegou a dizer "SI, desculpe" durante o evento na Casa Branca, em referência à promessa de renomear a SpaceXAI para SpaceXSI.

Já os executivos de Google, OpenAI e Anthropic — Sundar Pichai, Greg Brockman e Dario Amodei, respectivamente — assinaram o acordo simbólico da Casa Branca, mas evitaram repetir "SI" diante das câmeras, preferindo manter "IA" no vocabulário corrente.

Marketing político ou mudança regulatória?

Aqui mora a divergência real. Para uma parte dos críticos, trocar o nome é só um gesto de lealdade política sem efeito prático — o próprio governo de Trump continua usando "IA" em estatutos, regras de agências e até no texto da própria ordem executiva, que cita leis onde o termo antigo permanece. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi na mesma linha, determinando que os órgãos estaduais continuem usando "inteligência artificial" e criticando o que chamou de tentativa de desviar a atenção de falhas reais de regulação.

Do outro lado, pesquisadores como o professor David Krueger alertam que a confusão de nomes não é inofensiva: "superinteligência" é um termo técnico usado desde o século 19 para descrever sistemas que superariam a cognição humana, categoria bem diferente da IA comercial de hoje. Misturar os dois conceitos na linguagem oficial, segundo essa visão, pode tanto inflar expectativas sobre o que a tecnologia atual realmente faz quanto moldar como futuras leis vão definir — ou deixar de definir — limites para ela. Trump, por sua vez, elevou a aposta ao declarar que a Casa Branca passaria a considerar "inimigo" quem insistisse em dizer "inteligência artificial".

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