
Verme-do-diabo revela como a vida sobrevive nas profundezas da Terra
Nematoide descoberto a 1,3 km de profundidade em mina sul-africana resiste a calor extremo e baixo oxigênio, ampliando os limites conhecidos para a vida animal.
Por Redação tech & talk · Curadoria assistida por IA, revisão humana
Uma descoberta que reescreveu os limites da vida subterrânea
Pesquisadores identificaram um nematoide capaz de sobreviver a quilômetros de profundidade na crosta terrestre, em condições até então consideradas incompatíveis com a vida animal. A espécie, batizada de Halicephalobus mephisto — o "verme-do-diabo" —, foi descoberta em 2008 na mina de ouro Beatrix, na África do Sul, a cerca de 1,3 km abaixo da superfície.
Como o verme foi encontrado
Foto: reprodução/nationalgeographic.com
A equipe, liderada pelo especialista em nematoides Gaetan Borgonie e que incluiu os pesquisadores John Bracht, Cara Magnabosco e Esta van Heerden, filtrou mais de 6 mil litros de água subterrânea retirada de fissuras rochosas na mina Beatrix. Em outras minas sul-africanas, o volume analisado chegou a 12 milhões de litros, revelando exemplares em profundidades de até 3,6 km — a maior já registrada para um animal multicelular.
Um ambiente hostil à vida
A água onde os vermes vivem foi datada por radiocarbono em mais de 6 mil anos e não apresenta traços de trítio da superfície, o que indica isolamento quase total da biosfera externa. As condições são extremas: temperatura próxima de 37°C, pH alcalino de 7,9, baixíssima concentração de oxigênio dissolvido (entre 0,42 e 2,3 mg/L) e alta presença de metano biogênico. Nesse ambiente, os vermes se alimentam de micro-organismos que já eram conhecidos por habitar essas profundezas, mas que, até então, não tinham predadores multicelulares identificados.
O que os genomas revelam
Estudos genômicos publicados em 2019 e retomados em análises mais recentes mapearam como o H. mephisto resiste ao calor extremo: proteínas de choque térmico e uma versão modificada da enzima citocromo c oxidase funcionam como uma espécie de termopar biológico, permitindo que o organismo mantenha funções celulares em temperaturas que matariam a maioria dos animais. Em laboratório, o espécime original produziu oito ovos viáveis antes de morrer, permitindo à equipe estudar seu ciclo reprodutivo.
Por que isso importa
A descoberta amplia o entendimento sobre os limites físicos da vida complexa e reforça a hipótese de uma "biosfera profunda" povoada por organismos adaptados a condições extremas — informação relevante inclusive para a busca por vida em outros planetas, onde ambientes subterrâneos podem oferecer refúgio de radiação e das temperaturas hostis na superfície.