
Vídeos curtos, IA e algoritmos: o combo que acelera a desinformação eleitoral
Clipes de poucos segundos, ferramentas de IA generativa e algoritmos movidos a engajamento formam uma engrenagem que leva boatos de grupos fechados ao grande público em tempo recorde — mas também já existem freios institucionais e tecnológicos para a corrida eleitoral de 2026.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Da sala fechada para a tela de todo mundo
Imagine um boato como uma bola de neve empurrada morro abaixo: no começo é pequena, cabe na mão, mas ganha volume e velocidade a cada metro. É mais ou menos assim que funciona a desinformação eleitoral hoje. Segundo reportagem do Canaltech, o processo tem três etapas bem definidas: a narrativa nasce em canais restritos, como grupos de WhatsApp e Telegram; depois é amplificada em redes abertas, cujos algoritmos de recomendação premiam o que gera reação; e, por fim, vira vídeo curto — formato que, por ser rápido e emocional, consegue "vazar" até para a cobertura da mídia tradicional.
Um estudo do NetLab (laboratório de pesquisa em internet e redes sociais) analisou 115,3 mil mensagens no WhatsApp e 180,9 mil no Telegram durante o primeiro turno das eleições de 2022 e mapeou exatamente essa migração de conteúdo entre plataformas fechadas e abertas.
Foto: reprodução/minutodaseguranca.blog.br
Por que o algoritmo "gosta" de boato
Aqui vai a tradução do jargão: a "economia da atenção" é o modelo de negócio pelo qual as plataformas ganham dinheiro mantendo você olhando para a tela o maior tempo possível. Quanto mais tempo de tela, mais anúncios você vê e mais dados você gera — e o algoritmo não foi desenhado para separar fato de mentira, só para medir o que prende a atenção. Como resume a pesquisadora ouvida pelo Canaltech, "quanto mais tempo o usuário fica na rede, mais publicidade ele consome e mais dados ele gera". Conteúdo chocante ou indignado, nesse jogo, sai na frente.
IA generativa: o combustível que faltava
Se o algoritmo é o motor, a IA generativa é o combustível mais barato que já existiu para a desinformação. Ferramentas de geração de voz, imagem e vídeo tornaram trivial fabricar um discurso falso de um candidato ou uma "prova" visual de uma fraude inexistente. O tamanho do problema não é teórico: o Brasil concentrou 39% dos casos de deepfake registrados na América Latina em 2025, com um salto de 126% em ataques que usam imagens, vozes e identidades falsas, segundo o relatório Identity Fraud Report 2025-2026, da empresa de verificação de identidade Sumsub.
O outro lado: freios institucionais e tecnológicos
Nem tudo é corrida livre. De olho nas eleições de 2026, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) fechou parceria com a ElevenLabs — empresa britânica especializada em voz sintética — para tentar bloquear a clonagem não autorizada de vozes de candidatos e autoridades. A Resolução 23.732/2024 do próprio tribunal já proíbe o uso de conteúdo sintético para criar ou alterar imagem e voz de pessoa viva sem identificação clara ao eleitor, e o aplicativo Pardal Móvel passou a receber denúncias de propaganda irregular direto do celular do eleitor.
O que cada um pode fazer
Na ponta do usuário, a receita do Canaltech é simples: desconfiar de informações "boas demais para ser verdade", reconhecer o próprio viés de confirmação (a tendência de acreditar mais fácil no que já se quer acreditar) e usar chatbots de verificação de fatos antes de compartilhar. Cobrar transparência algorítmica das plataformas completa a lista — afinal, entender como o conteúdo chega até você é o primeiro passo para não ser apenas um elo na corrente da desinformação.