
Waymo diz que é mais segura que humanos, mas quem confere a conta?
Novos dados autorreportados da Waymo apontam até 92% menos acidentes graves que motoristas humanos, mas a ausência de auditoria independente padronizada deixa reguladores e cidadãos sem resposta sobre o custo real da tecnologia.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Os números que a própria empresa divulga
A Waymo, empresa de carros totalmente autônomos ligada à Alphabet (controladora do Google), divulgou um novo lote de dados de segurança que, mais uma vez, reforça a narrativa que a companhia mais gosta de contar: a de que seus robotáxis erram menos que motoristas humanos. Segundo o levantamento, os veículos sem motorista tiveram 92% menos acidentes com lesão grave ou fatal, 83% menos colisões com acionamento de airbag e 82% menos acidentes com qualquer tipo de lesão, na comparação com um parâmetro de referência humano. Os dados cobrem 271,3 milhões de milhas rodadas sem ninguém no volante em cinco cidades americanas: São Francisco, Phoenix, Los Angeles, Austin e Atlanta.
O problema é que quem produziu, coletou e divulgou esses números foi a própria Waymo. E é exatamente esse ponto que especialistas ouvidos na reportagem original levantam: sem exigências padronizadas de relato de milhagem e acidentes para todo o setor, fica difícil para formuladores de políticas públicas confirmar de forma independente se os carros autônomos estão mesmo ficando mais seguros à medida que se espalham por novas cidades.
O que diz uma fonte fora da empresa
Nem tudo vem só da Waymo. Um estudo do instituto de pesquisa em segurança viária IIHS, divulgado em julho, comparou por conta própria os índices de acidentes de robotáxis e carros dirigidos por humanos em São Francisco, Phoenix, Los Angeles e Austin. O resultado: 68% menos acidentes que geram registro policial por milha rodada, com variação enorme entre cidades — queda de 76% em Phoenix, 71% em Los Angeles e 35% em São Francisco, mas alta de 4% em Austin. Ou seja, a cidade muda tudo, e generalizar "a Waymo é mais segura" esconde detalhes importantes.
O que o cidadão de qualquer cidade brasileira deveria perguntar
Se você mora numa cidade que corre para atrair esse tipo de investimento — e várias capitais já sinalizam interesse em mobilidade autônoma —, vale perguntar: quem audita esses relatórios antes de virarem argumento de venda para prefeituras? Quanto custa implantar e manter essa frota, e quem paga a conta em caso de acidente sem motorista responsável? E o que não aparece na planilha, como carros parados bloqueando ambulância ou caminhão de bombeiros, incidentes que reguladores americanos já chamaram de "tendência preocupante"? Antes de comemorar percentuais bonitos, cidades e reguladores precisam de dados independentes, verificáveis e comparáveis — não apenas os números que a própria fabricante decide publicar.