
Waymo entrega documentos à NHTSA, mas censura respostas sobre criança
Sete meses após um robotáxi da Waymo atropelar uma menina de 9 anos perto de uma escola na Califórnia, a empresa enviou respostas ao regulador federal quase totalmente redigidas, alegando sigilo comercial.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Um atropelamento, sete meses e nenhuma resposta clara
Em 23 de janeiro, um robotáxi Jaguar I-PACE operado pela Waymo atropelou uma menina de 9 anos em Santa Monica, na Califórnia, a poucos quarteirões de uma escola primária, durante o horário de entrada das aulas. O carro, sem passageiros, tinha acabado de deixar um passageiro perto da escola e virava para a 24th Street quando a criança saiu correndo de trás de um SUV estacionado em fila dupla. O veículo reduziu a velocidade de 17 mph para menos de 6 mph antes do impacto, atingindo a criança perto do farol dianteiro direito. Ela teve ferimentos leves e não precisou de atendimento médico no local.
Uma semana depois, a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência reguladora de trânsito dos Estados Unidos, abriu uma investigação preliminar. Em 23 de março, o órgão enviou à Waymo 12 perguntas, com diversas subperguntas, sobre como o sistema autônomo da empresa define limites de velocidade em zonas escolares, como trata reclamações de comportamento perto de escolas e que documentação de software sustenta essas decisões. O prazo, prorrogado a pedido da própria Waymo, venceu em maio; respostas parciais só chegaram em julho — e vieram quase inteiramente redigidas, com trechos apagados sob a justificativa de "informação comercial confidencial".
Sigilo empresarial x interesse público
É aqui que a pauta interessa a quem pensa em cidades inteligentes e mobilidade: uma agência federal, agindo em nome do cidadão, pede explicações sobre como um carro robô decide se freia ou não perto de uma escola — e a resposta que chega ao público é uma folha em branco. Matthew Schwall, diretor sênior de segurança da Waymo, disse que o "objetivo mútuo" é fornecer informações que ajudem a investigação do escritório de defeitos da NHTSA (ODI). Mas se o conteúdo real fica trancado sob sigilo comercial, o cidadão que anda na calçada ao lado desses veículos não tem como saber o que, de fato, mudou — ou vai mudar — no comportamento da frota perto de escolas.
O caso é diferente de outra frente já aberta nos Estados Unidos, em Nevada, que autorizou até 8 mil robotáxis de Tesla, Uber e Waymo circulando no estado: ali a discussão é sobre expansão e escala. Em Santa Monica, o problema é acidente real, criança ferida e transparência regulatória. A NTSB (junta de segurança em transportes) também abriu apuração paralela, com relatório final previsto só depois de 12 meses do incidente.
Perguntas que ainda faltam responder
Quem paga a conta de uma investigação que se arrasta sete meses sem resultado público? Que órgão, no Brasil, teria poder equivalente ao da NHTSA para exigir dados de empresas de mobilidade autônoma antes de liberá-las nas ruas perto de escolas? E, principalmente: até que ponto "sigilo comercial" pode ser usado para blindar informações de segurança pública que deveriam ser, por definição, transparentes? Enquanto Waymo, NHTSA e NTSB trocam documentos redigidos, a pergunta mais simples — o que exatamente falhou, ou não falhou, perto daquela escola — segue sem resposta clara para quem mora na rua.