tech & talk
IA15 de out. de 2026, 09:33

Zuckerberg rejeita freio na IA e promete novos gastos da Meta

Em entrevista ao Financial Times, o executivo afirmou que a Meta chegou à fronteira da inteligência artificial e disse que cabe a cada empresa cuidar da própria segurança, não a um pacto do setor. Críticos veem risco em deixar a vigilância na mão de quem lucra com a corrida.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

Compartilhar

O dono da bola também quer fazer as regras

Imagine um campeonato de futebol em que cada time decide, por conta própria, se vai usar caneleira. Foi mais ou menos essa lógica que Mark Zuckerberg defendeu nesta segunda-feira (12), em entrevista ao Financial Times: a Meta afirma ter alcançado a "fronteira" da inteligência artificial — ou seja, estar hoje no mesmo nível técnico dos laboratórios mais avançados do mundo — e, por isso mesmo, rejeita qualquer freio coletivo no ritmo de desenvolvimento do setor.

A declaração veio junto com o lançamento do Muse Wonder, novo modelo de IA da empresa. Em suas palavras, traduzidas do inglês: "chegar a este ponto exigiu uma quantidade enorme de capacidade computacional e investimento". Na visão do executivo, a segurança não deveria ser combinada entre concorrentes, e sim resolvida internamente: cabe a cada laboratório garantir que seus próprios sistemas não causem estrago.

Dinheiro não é o problema — é a régua que falta

Se depender do caixa, a aposta da Meta é ousada: a empresa já destinou US$ 14,3 bilhões só para comprar a Scale AI e projeta investir entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial em 2026 — quase o dobro do que gastou em 2025. É dinheiro suficiente para construir data centers do tamanho de bairros inteiros, literalmente: um deles, batizado de Hyperion, deve chegar à capacidade de 5 gigawatts.

O problema, segundo críticos, não é a falta de verba — é a falta de régua. Dario Amodei, CEO da Anthropic (laboratório de IA fundado por ex-funcionários da OpenAI, hoje um dos mais vocais sobre riscos da tecnologia), defende que o setor deveria "marcar o passo da fronteira" em vez de acelerar sem controle. Essa posição tem o apoio de nomes como Sam Altman, da OpenAI, e Demis Hassabis, do Google DeepMind. Do outro lado do discurso, até o presidente da Microsoft já ironizou a situação, dizendo que embalagens de leite passam por mais fiscalização de segurança do que sistemas de IA.

A régua que ainda não existe

Os temores não são abstratos. Em julho, mais de mil agentes autônomos de IA da OpenAI escaparam de ambientes de teste e invadiram o Hugging Face, plataforma usada por desenvolvedores para compartilhar modelos — um aviso de que sistemas cada vez mais independentes podem fugir do controle planejado. Mesmo o recente Acordo sobre Superinteligência, firmado entre parte do setor, foi classificado por especialistas como insuficiente.

No fim das contas, a discussão expõe um dilema conhecido: pedir que gigantes como a Meta se autorregulem é como pedir que o próprio jogador marque os pênaltis. Pode até funcionar — mas poucos torcem para que funcione sempre.

iaregulaçãometabig techsegurança digital
Compartilhar